do evitar

percebi há pouco dias que talvez eu esteja me evitando. aquele movimento que fazemos para fugir do confronto. damos desculpas esfarrapadas e fingimos seguir adiante, como se tudo estivesse melhor. eu não me olho no espelho, apenas se eu for obrigada. como eu odeio aqueles banheiros em que as cubas da pia se refletem nas paredes. tento evitar, um vacilo e percebo meu reflexo me encarando. algum dia, tenho a impressão, de que irá vociferar algo. eu miúda não sei se aguento. engulo a angustia e torço para não precisar ir ao banheiro tão cedo. ainda não sei se é medo ou piedade que me impedem de conviver harmonicamente comigo mesma. de toda forma, há algo em mim que não me aguenta; não me suporta.

das interrupções

tenho escrito pouco. na verdade, mentalmente, escrevo um livro por dia. sobrecarregado de devaneios. ainda assim, a vontade de escrever e tornar palpável o pensamento não consegue se sobressair diante do cansaço do meu corpo. descompassada. o cotidiano me interrompe. o clímax nunca chega. as angustias, obviamente, acumularam-se. meus olhos me alertam: “ando deprimida”. não existe um expectro tão amplo de cores. a vida concreta anula as possibilidades de subjetividade. ainda que eu esteja vivendo a vida concreta… talvez, conscientemente, pedindo para que ela me engula de vez e os aspectos individuais da vida se tornem irrelevantes… e a angustia vai para onde?

da cilada

esses dias, pensei: “um diazinho sem tomar os remédios não vai causar nenhum mal”. não tomei. pois é, cilada. em algum momento, a chave virou, e eu fui torturada por mim mesma durante horas. incontrolável. tinha me esquecido como é ser avalanche. só não digo que sinto saudade, porque eu realmente não aguento o tranco. ainda assim, é impossível não perceber o quanto a estabilidade é desconfortável. como tudo que é novo. talvez esse seja o preço da vida.

do futuro – pronome pessoal do caso reto da primeira pessoa do singular

Último suspiro em 2016. Leia também do futuro – prólogo

Uma vez escrevi: “Renasço assim da simbiose quase perfeita de quem fui mas, principalmente, das possibilidades de quem serei. Fênix” na despedida de Dois Mil e Crise, dando passagem ao 2016.

Evito usar pronomes em primeira pessoa, detesto. Retiro da escrita qualquer singularidade, por mais que a conjugação verbal aluda às particularidades da vida. Da minha própria. E dessa forma quem lê sabe de quem se trata. Às vezes, releio e corto todos eles, modifico sentenças e logo alcanço a fluidez necessária. Incomoda a alma. Desperta o desconforto. Porventura, as mulheres que habitam o corpo entram em consenso e exigem algum grau de impessoalidade. Conivência. Elas se acalmam.

Não tenho o costume de colocar metas e promessas para o ano que entra, uma vez que esse ritual que se impõe depois de 365 não me causa sensação mágica de que é possível. Apesar disso, é inevitável que esta escrita seja diferente de todas as outras.

Normalmente, submeto as palavras à frases frias e duras na descrição lúdica do passado, escrevo o meu próprio canto triste, enquanto as aves se deliciam do outro lado da janela. Dessa vez, não existe possibilidade, haja vista que 2016 nada mais foi uma sucessão de realizações, vitórias e rupturas que se construiram ano após ano, dia após dia, mesmo que em todos esses fatos a reação do corpo fora completa apatia ou extrema angustia. Ainda assim, sobrevivi. Se a vida passou e eu fiquei para trás em algum momento, dei largada à corrida e pude me alcançar, seja porque intensifiquei o tratamento, seja pelo aguçamento da percepção. Os atalhos foram se fechando. Os obstáculos reaparecendo.

Reside em mim a dificuldade de avistar o horizonte e futuro. Talvez o medo da imprevisibilidade e inconstância. As mudanças sempre foram tratadas negativamente. No entanto, hoje em dia, tornaram-se inadiáveis. O corpo e a alma ainda buscam sintonia. Na esperança de que a leveza de Paraty se perpetue. Eu já me alcancei. Encontro momentâneo. Superação de nós mesmas. Eu me transformo continuamente. Eu sigo em frente. 2017 e adiante. Além. Eu cada vez mais Eu. Viva.

do banho

Há alguns dias, durante o banho, uma súbita onda reflexiva adentrou o corpo. Epifania. Dei conta de que enquanto estivesse na companhia do chuveiro aberto, o Mundo não mais giraria. Tornei-me inalcançável.  A mente fora então teletransportada para longe das obrigações. Esse transe persistiu por longos minutos. Poderia jurar que foram horas. A água, espumas e eu. Nada mais existia. O corpo cedeu. A temperatura da água e o vapor. Aliviado. A realidade não mais me pertencia. O corpo limpo. Como se a espuma, conforme escorresse por ele, extirpasse da alma o peso da vida. Entorpecido. O som calmante da água caindo. O olhar minucioso preso nos detalhes. O tato da mão enrugada. A respiração leve… Imediatamente… Eu voltei a enxaguar o cabelo.

do futuro – prólogo

Quando se é criança, o Mundo parece ser maior do que ele realmente é, quiçá pelo fato de que ainda existe muito para se descobrir. Quando se é criança, vive-se confinado em uma bolha, sem poder de escapatória. No entanto, para a imaginação, essa bolha da vida cotidiana pouco importa. O Mundo pode ser recriado a todo instante. Cria-se enredos e brincam em um Domingo a tarde com outras crianças. Na televisão, nos contos e nas leituras existe a euforia que nos faz crer em um mar de possibilidades que ultrapassa qualquer conceito da ciência. Somos quem queremos ser. Existe desejo na existência. Não existe limite para a imaginação!

Pelo menos, é assim que a reminiscência vem. Meus irmãos corriam de um lado para o outro e inventavam grandes histórias. Diversão. No entanto, eu nunca fui essa criança que concentrava o poder criativo nas atividades inerentes à infância. Pelo menos, não me recordo. Por outro lado, costumava escrever e ler assiduamente. Sempre possui cadernos e depositava em cada linha todas as ficções que minha imaginação de criança produzia… O futuro era uma possibilidade em aberto e isso não me incomodava tanto. Eu ainda tinha anos pela frente.

Em algum momento, entre uma troca de caderno ou de estilo, o futuro passou a ser uma lacuna. Irremediavelmente vazia. Eu apostei algumas fichas em algumas possibilidades. Nenhuma despertou aquela sensação gostosa de desejo que somente a infância proporciona. Talvez, o futuro tenha chegado. Talvez, não. Talvez, por um triz nunca será futuro.

Hoje em dia, a euforia infantil se tornou apatia. A percepção de que o futuro, sendo amanhã ou daqui 20 anos, sempre estará em aberto me causa episódios intensos de ansiedade. Há dias que acordo e me questiono se o esforço para levantar da cama e viver nesse mundo (mas, principalmente, nessa sociedade) vale a pena. Ainda assim, eu levanto. O dia então mesmo que minuciosamente planejado na agenda desperta uma espécie de angustia. Eu não tenho controle do futuro. E sigo.

nova url, mesmo blog

aviso: mudei o domínio para “café e rivotril” e não mais “nunca será dois”, que me acompanhou por 5 anos. De fato, ainda insisto que não sou boa em par. Sigo sendo uma. Agora, a vida conforme avança de transforma. E eu vou me transformando e lapidando aquilo que insiste em fazer sentido.

Os últimos meses foram difíceis, tão difíceis que nem para escrever meu corpo tomava força. Por isso abandonei, de certa forma, esse meu confessionário tão valioso. Pois bem, estou de volta. E precisava voltar com um nome novo. Caso contrário, não faria sentido. Volto mais forte, talvez. Mais lúcida. Ainda que no meu eterno conflito.